Itália exige 50 GWh de armazenamento até 2030 para integrar salto solar de 82 GW
Terna e Snam alertam que a Itália precisa de 50 GWh adicionais de armazenamento em escala utilitária até 2030. Com a capacidade solar projetada para atingir 82,3 GW, o país enfrenta riscos de curtailment estrutural e reversão de fluxos na rede. Restam 24 GWh sem leilão definido.

O Documento de Descrição de Cenários (SDS) 2026, elaborado pelos operadores de rede Terna e Snam, projeta que a capacidade instalada de energia solar na Itália deve saltar de 43,5 GW no final de 2025 para 82,3 GW em 2030. Esse crescimento acelerado, que deve representar cerca de 37% da produção nacional de eletricidade, exige uma resposta técnica imediata da infraestrutura. Para absorver esse volume sem comprometer a estabilidade do sistema, os operadores identificam a necessidade crítica de adicionar 50 GWh de armazenamento em escala utilitária até o final da década.
Atualmente, existe um hiato significativo entre a necessidade técnica e as contratações regulatórias. O Mecanismo de Compra de Capacidade de Armazenamento (MACSE) já contratou cerca de 10 GWh no leilão de novembro de 2025, com entrega prevista para 2028, e um segundo leilão agendado para novembro de 2026 oferecerá até 16 GWh. Isso deixa um gap de 24 GWh não coberto por leilões definidos, dependendo de novas licitações ou de investimentos privados motivados por sinais de preço no mercado spot para evitar cortes de geração.
A concentração geográfica da expansão solar é um fator determinante para a nova dinâmica da rede. Mais da metade da nova capacidade está localizada no sul da Itália e na Sicília, o que inverterá os fluxos históricos de energia. A região Sul, que historicamente importava energia, deve passar a exportar 21,2 TWh em 2030. Essa reversão pressiona a capacidade de transmissão existente e redefine a lógica de arbitragem, tornando o armazenamento local essencial para gerenciar a sobregeração e evitar congestionamentos físicos na infraestrutura.
O curtailment, ou corte de geração renovável, deve se tornar uma característica estrutural do sistema elétrico italiano, especialmente durante o meio do dia na primavera. As projeções indicam que os cortes podem atingir 6 TWh em 2030, crescendo para até 25 TWh em 2040. Sem o armazenamento adequado, essa energia será desperdiçada, reduzindo a receita dos ativos solares e aumentando a volatilidade nos preços spot, o que representa um risco direto para a bancabilidade de novos projetos fotovoltaicos na região.
O armazenamento total no país, excluindo as hidrelétricas reversíveis, deve crescer de 17,9 GWh em 2025 para 80 GWh em 2030, incluindo 19 GWh de soluções distribuídas. A Terna estima que, em 2030, mais de 90% da energia carregada nas baterias na maioria das zonas de mercado terá origem renovável. Esse cenário transforma as baterias de ativos auxiliares em componentes centrais para a integração de redes, exigindo que desenvolvedores tenham projetos prontos e bancáveis para os prazos rigorosos de entrega de 2028 e 2029.
Para investidores do setor, o leilão MACSE de novembro de 2026 representa um ponto de inflexão imediato. Aqueles que conseguirem garantir capacidade nos 16 GWh disponíveis terão receita contratual protegida, mitigando riscos de mercado. Por outro lado, o gap remanescente de 24 GWh permanece uma zona de incerteza regulatória. Desenvolvedores que apostarem puramente em sinais de preço sem cobertura regulatória clara enfrentam riscos de timing, já que a volatilidade do mercado pode não compensar os custos de capital antes que a necessidade técnica se torne crítica.
A análise setorial destaca que a Itália está estabelecendo um precedente europeu ao vincular metas específicas de armazenamento (em GWh) à expansão renovável, em vez de apenas metas percentuais de penetração. No entanto, o sucesso dessa transição dependerá da atualização do Plano de Desenvolvimento da Rede (PSR) em 2027 e da eficácia das interconexões internacionais, como o link Sardenha-Córsega e a futura conexão com a Tunísia. A execução precisa dos projetos atuais será testada pela disciplina financeira imposta pelos contratos MACSE.
Tags
Comentários (0)
Seja o primeiro a comentar.
Receba o essencial do setor de energia
Os principais fatos que afetam preço, regulação, geração e combustíveis — todo dia ao meio-dia, no seu e-mail.
Como esta matéria foi produzida: apurada a partir da fonte oficial citada e de documentos primários, com verificação de números, datas e prazos antes da publicação, seguindo a nossa Política Editorial — que inclui o uso de tecnologia própria na apuração. Viu algo a corrigir? Fale com a redação.