Estudo aponta gap de 15% entre bifacialidade nominal e efetiva em usinas solares
Pesquisadores espanhóis identificam discrepância sistêmica entre especificações técnicas e desempenho real de módulos bifaciais. A temperatura e a geometria de montagem reduzem o ganho esperado em até 15%, exigindo revisão de modelos financeiros para evitar superestimativas de receita em projetos de grande porte.

Um estudo publicado na revista Renewable Energy em 14 de outubro de 2026 revela uma discrepância crítica entre a bifacialidade nominal dos módulos solares e seu desempenho efetivo em campo. Pesquisadores da Universitat Politècnica de València e da Grupotec analisaram dados operacionais de uma usina de 50 MWp na Espanha, validando os resultados em outras quatro instalações na Espanha e no Reino Unido. A análise demonstrou que a bifacialidade efetiva pode ser até 15% inferior à nominal, com quedas significativas durante picos de irradiância, desafiando as premissas lineares adotadas em muitos modelos de previsão de geração.
O mecanismo por trás dessa perda de eficiência está diretamente ligado ao aumento da temperatura dos módulos. Embora a radiação traseira contribua para o ganho absoluto de energia, especialmente no verão, ela eleva a temperatura da célula, reduzindo a eficiência da conversão elétrica. Em irradiâncias superiores a 1.000 W/m², a bifacialidade efetiva caiu para entre 0,55 e 0,57, contra o nominal de 0,70. Isso cria um paradoxo onde mais luz traseira gera menos ganho percentual do que o esperado, impactando diretamente a receita em mercados spot e contratos de compra de energia (PPAs) que dependem de projeções otimizadas.
A geometria de montagem e as condições climáticas também são determinantes. O estudo mostrou que trackers de fileira única são mais sensíveis às variações de irradiância, enquanto sistemas fixos apresentam relações mais estáveis. A bifacialidade efetiva variou de 66% a 103% da nominal dependendo da configuração e do clima. Os pesquisadores alertam que coeficientes regulatórios, como o fator 1,15 usado na Espanha para conversão de capacidade, não devem ser confundidos com ganhos operacionais reais, pois nenhum valor observado se aproximou dessa marca, indicando uma falha na tradução de normas administrativas para a realidade física das plantas.
Para o setor, as implicações são financeiras e técnicas. Modelos que assumem ganhos constantes superestimam o LCOE real e a viabilidade dos projetos. Recomenda-se incorporar a dependência de temperatura e irradiância nas simulações de performance, abandonando valores nominais estáticos. No mercado brasileiro, isso implica revisar cláusulas de garantia e expectativas de retorno para refletir o desempenho real, evitando surpresas que possam comprometer a saúde financeira dos ativos. A validação em múltiplos sites reforça que o fenômeno é sistêmico, exigindo análises localizadas e não genéricas para a tomada de decisão.
A precisão na modelagem torna-se crucial para a sustentabilidade financeira dos ativos solares. Investidores e traders devem ajustar suas expectativas de receita, considerando que o ganho de potência bifacial médio foi de apenas 0,495 na usina referência, muito abaixo do potencial teórico. A distinção entre especificações nominais, fatores regulatórios e contribuição real de irradiância traseira é fundamental para uma avaliação precisa de desempenho. Ignorar essas variáveis pode levar a erros de precificação e a riscos contratuais significativos em um mercado cada vez mais competitivo e exigente em termos de eficiência operacional.
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